sábado, 7 de dezembro de 2013

Meus Dias

Francisco Dutra

Vitória do Mearim - agosto de 1999


Parte I - Prelúdio



Eu vivo à sombra dos meus dias,
Espero mais dias para acrescentar
Mais sombras, porfias,
Aos meus próximos dias
Que serão na esquina, na árvore,
Na cruz de cada dia;
Para esquecer meu mundo,
Amores, desamores,
Minhas ilusões perdidas
Da pátria esquecida.
Pátria de cidadãos miseráveis:
Sem rumo, nem sonho,
Só acalanto sem sono,
Um abismo profundo.

Como faz sombras!
E essas sombras me batem
Com seu vento bandido.
Mas que é de meus dias?
Deixei-os pagando promessas
Nos largos, na Sé, na saudade;
Perturbando vigias
Sentinelas tardias
Que não me deram meus sonhos.
Oh! Onde estão os meus dias?

Talvez se foram com o inverno,
Homem traquina, que com o frio
Enruguece todo rosto;
Que no mundo entristece todo corpo.
Eu vivo, eu faço os meus dias
Procuro-os e não sei onde estão,
Preocupo-me e não sei quem os guia
Na rua, na avenida, no solado do sapato,
Em cada via, agonia.
Contradizem-se meus dias
Nos passos que terço
Em cada paço, na escada, degraus.
No laço de minhas pernas,
No ônibus, no metrô,
No bonde, arrelia.

Eu vivo, eu faço os meus dias,
Escondo as feridas,
Cicatrizes sentidas
De quem vive no dia, na noite,
Em cada hora que passa,
Amassa o coração em laço,
Do frio tangido
Que move a tristeza no rosto,
Na face das mãos,
Calos, sangues, farrapos.

E os meus dias, onde estão?
Que maluco os tem?
Em que face transita
Esse veículo efêmero?
No rosto de um sultão?
Em que mar navega
Esta nau de sonhos?
No mar de um outro coração?
E os meus dias se vão,
Mas não vejo o tostão,
Que trafega no dia
Em busca de pão
Oh! Mas diga:
Onde estão os meus dias?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um nó no Sertão




Part II - um momento: duas solidões

Thiago A. Sarmento

04/12/2013

é quando se abstém de poeira o ar
que não consigo ver as faces perdidas
nesse alagamento constante do ser
ser meu próprio querer: rasgando as tripas do sol
deixando derramar pequenas gotas de esperança
inté mais ver, outro dia quem sabe a encontremos
encontramos: olhem, olhem, quem é ela?
a felicidade, que se perdeu caatinga acima

logo abaixo de nossos desejos, os passos
guiando sem dizer, a mente explicando
o coração apertando, nessa terra que canta
abaixo do céu do chão, milhões de outros
arrebóis, em que a alma sai pra passear

sob a fornalha de cada dia um homem caminha
lábios sedentos, mãos manchadas de cansaço
e sob a mesma fornalha, abaixo de um teto
seu leito o espera, suas paredes guardam-lhe
chega, janta, já não diz que ama algo
adormece, morre novamente, na mesma solidão
a mulher ao lado também morre na mesma solidão
é tão difícil sentir? não, na terra de João
busca se o pão, acostumou-se assim
amar é ilusão e não põe na mesa: pão!