Vitória do Mearim - agosto de 1999
Parte I - Prelúdio
Eu vivo à sombra dos meus dias,
Espero mais dias para acrescentar
Mais sombras, porfias,
Aos meus próximos dias
Que serão na esquina, na árvore,
Na cruz de cada dia;
Para esquecer meu mundo,
Amores, desamores,
Minhas ilusões perdidas
Da pátria esquecida.
Pátria de cidadãos miseráveis:
Sem rumo, nem sonho,
Só acalanto sem sono,
Um abismo profundo.
Como faz sombras!
E essas sombras me batem
Com seu vento bandido.
Mas que é de meus dias?
Deixei-os pagando promessas
Nos largos, na Sé, na saudade;
Perturbando vigias
Sentinelas tardias
Que não me deram meus sonhos.
Oh! Onde estão os meus dias?
Talvez se foram com o inverno,
Homem traquina, que com o frio
Enruguece todo rosto;
Que no mundo entristece todo corpo.
Eu vivo, eu faço os meus dias
Procuro-os e não sei onde estão,
Preocupo-me e não sei quem os guia
Na rua, na avenida, no solado do sapato,
Em cada via, agonia.
Contradizem-se meus dias
Nos passos que terço
Em cada paço, na escada, degraus.
No laço de minhas pernas,
No ônibus, no metrô,
No bonde, arrelia.
Eu vivo, eu faço os meus dias,
Escondo as feridas,
Cicatrizes sentidas
De quem vive no dia, na noite,
Em cada hora que passa,
Amassa o coração em laço,
Do frio tangido
Que move a tristeza no rosto,
Na face das mãos,
Calos, sangues, farrapos.
E os meus dias, onde estão?
Que maluco os tem?
Em que face transita
Esse veículo efêmero?
No rosto de um sultão?
Em que mar navega
Esta nau de sonhos?
No mar de um outro coração?
E os meus dias se vão,
Mas não vejo o tostão,
Que trafega no dia
Em busca de pão
Oh! Mas diga:
Onde estão os meus dias?
