domingo, 27 de julho de 2014

alegoria das nuvens

1918_02_Portrait of Lucia (Retrato de Lucia), circa 1918 - Salvador Dalí


um vento leva
um vento passa
diz: olha o céu
e olhamos o infinito
em busca de nós

passamos na porta da saudade
passamos os dias a sonhar
pra onde todos nós iremos?
depois que tudo isso passar?
velhas perguntas
velhas questões
nenhuma resposta

tarde nua e sedenta
calor descendo
coração palpita
alma dança
tudo está além
somos frutos do além
lembranças vivas
em um pedaço de cabeça
e vamos indo

e uma imagem voa
quem vem
quem vai?
somos apenas uma imagem
não existimos

se sabemos que vamos
morrer além
que sensação é essa?
viver!
dê-me a mão e vamos
viver
em sonhos
coloridos
de Macaxeira

domingo, 23 de fevereiro de 2014

um sertão perdido


1913_01_Vilabertrin, 1913 - Salvador Dalí

Thiago A. Sarmento

era um sonho
perdido em sonho
era tudo em nada
somos isso
somos nós
era? nós

um dia no sertão
eu via tu
eu dormia em tu
eu queria tu
e desculpa tu
meu sonho
era nós
era vós

era cedo, e acordei
vi nós, cedo
ahhh como eu chorei
e percebi
um sertão
um vão
um não
que era sim
esquecido

sim
nós vamos
voar

além

Soneto I

Francisco Dutra


São Luís/MA, 23/02/2014


Eu te envio palavras devolutas
Minhas letras vazias e insipientes
Num insosso vaso de requintes
Regado a roxas flores mortas.

Eu te remeto o volátil sentimento
Num envelope cinzelado e cuspido
Amarrado ao obtuso espanto dourado
A que penduro meu partido encanto.

Agarre-os, são teus.
Receba com tuas mãos galantes
As cinzas vivas dos mortos instantes.

Simplesmente, veja o tudo e o nada
Numa carruagem discreta e constante
Que caminha rumo ao ruído monte.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Meus Dias

Francisco Dutra

Vitória do Mearim - agosto de 1999


Parte I - Prelúdio



Eu vivo à sombra dos meus dias,
Espero mais dias para acrescentar
Mais sombras, porfias,
Aos meus próximos dias
Que serão na esquina, na árvore,
Na cruz de cada dia;
Para esquecer meu mundo,
Amores, desamores,
Minhas ilusões perdidas
Da pátria esquecida.
Pátria de cidadãos miseráveis:
Sem rumo, nem sonho,
Só acalanto sem sono,
Um abismo profundo.

Como faz sombras!
E essas sombras me batem
Com seu vento bandido.
Mas que é de meus dias?
Deixei-os pagando promessas
Nos largos, na Sé, na saudade;
Perturbando vigias
Sentinelas tardias
Que não me deram meus sonhos.
Oh! Onde estão os meus dias?

Talvez se foram com o inverno,
Homem traquina, que com o frio
Enruguece todo rosto;
Que no mundo entristece todo corpo.
Eu vivo, eu faço os meus dias
Procuro-os e não sei onde estão,
Preocupo-me e não sei quem os guia
Na rua, na avenida, no solado do sapato,
Em cada via, agonia.
Contradizem-se meus dias
Nos passos que terço
Em cada paço, na escada, degraus.
No laço de minhas pernas,
No ônibus, no metrô,
No bonde, arrelia.

Eu vivo, eu faço os meus dias,
Escondo as feridas,
Cicatrizes sentidas
De quem vive no dia, na noite,
Em cada hora que passa,
Amassa o coração em laço,
Do frio tangido
Que move a tristeza no rosto,
Na face das mãos,
Calos, sangues, farrapos.

E os meus dias, onde estão?
Que maluco os tem?
Em que face transita
Esse veículo efêmero?
No rosto de um sultão?
Em que mar navega
Esta nau de sonhos?
No mar de um outro coração?
E os meus dias se vão,
Mas não vejo o tostão,
Que trafega no dia
Em busca de pão
Oh! Mas diga:
Onde estão os meus dias?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um nó no Sertão




Part II - um momento: duas solidões

Thiago A. Sarmento

04/12/2013

é quando se abstém de poeira o ar
que não consigo ver as faces perdidas
nesse alagamento constante do ser
ser meu próprio querer: rasgando as tripas do sol
deixando derramar pequenas gotas de esperança
inté mais ver, outro dia quem sabe a encontremos
encontramos: olhem, olhem, quem é ela?
a felicidade, que se perdeu caatinga acima

logo abaixo de nossos desejos, os passos
guiando sem dizer, a mente explicando
o coração apertando, nessa terra que canta
abaixo do céu do chão, milhões de outros
arrebóis, em que a alma sai pra passear

sob a fornalha de cada dia um homem caminha
lábios sedentos, mãos manchadas de cansaço
e sob a mesma fornalha, abaixo de um teto
seu leito o espera, suas paredes guardam-lhe
chega, janta, já não diz que ama algo
adormece, morre novamente, na mesma solidão
a mulher ao lado também morre na mesma solidão
é tão difícil sentir? não, na terra de João
busca se o pão, acostumou-se assim
amar é ilusão e não põe na mesa: pão!


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um Pentagrama


Francisco Dutra

08/11/2013

Te quero minimamente
Como as semínimas
Tocam
Compassos
Esparsos
No espaço.

Te chamo em semifusas
Difusas
Confusas
Em lassos traços

Te amo em colcheias
Acolchoadas
Dissonantes
Mudas

Te amo em pausas
Carrancudas
Intrusas
Sob frequências agudas.

Um nó no sertão


 Part I - um momento de luz

Thiago A. Sarmento

08/11/2013

que só uma pá me deixa
assim por lado de cá
meio intenso, meio aumento
hoje eu não sei
amanhã eu vou lá e roubo ela
levo pro céu
quero ver o pai dela dizer:
"te desafio Deus"
porque ele é o que se é
Deus fez nosso amor nascer
e ele mesmo pode arrancar da terra
uma flor antes de nascer
um sonho antes de viver
mas, por nós, por ti,
sonhos floridos na caatinga
eu vivi

vá, não se esqueça
não esqueça não
que foi eu
o homem gentil e feroz
que queria te dizer:
amo você!